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CBN
Proposta de Curso Básico Nuclear da ABMP
Versão aprovada em reunião da Diretoria em 25 de novembro
de 2005
1 –
Considerações Iniciais
O Curso Básico
Nuclear - CBN, de Formação em Psicossomática, adota, como
referência, os eixos da interdisciplinaridade na área da
saúde e das conexões sociopsicossomáticas, que definem a
identidade e especificidade da ABMP.
O objetivo é
que os associados e interessados, profissionais que atuam na
área da saúde, tenham a possibilidade de usufruir uma
complementação e qualificação da sua formação de graduação. Com
ele esperamos que os interessados possam ampliar o olhar sobre o
adoecer humano, aproximando o “fragmento do todo”, mantendo na
sua prática, a técnica profissional específica, dada pela
graduação. Desta forma manteria sua especificidade técnica, mas
estaria sensível, aberto e participativo, visando a construção
de um saber proveniente da aproximação e das trocas entre as
disciplinas que marcam as três vertentes do adoecer humano –
biológica, psicológica e sociológica -. Outro ponto essencial, é
que tanto os profissionais atuantes na área da saúde como os
pacientes por eles atendidos seriam sujeitos das ações e não
objetos das mesmas.
Sobre os temas
definidos como os que dão especificidade e identidade ao
movimento – a interdisciplinaridade na área da saúde e as
conexões sociopsicossomáticas - cabe ressaltar a preocupação
de não privilegiar qualquer uma das vertentes que constituem a
visão biopsicossocial do ser humano. Do contrário, os
profissionais poderiam procurar as associações específicas de
cada uma das vertentes.
Assim,
rompe-se com a hegemonia dos saberes, trazendo, para os eventos
e para o CBN em todas as Regionais, profissionais que
representem os saberes biológicos, psicológicos e sociais de
forma que, com essa aproximação, e com as trocas, possam estar
todos comprometidos na construção de um saber menos fragmentado,
mas articulado, concebendo o sujeito constituído a partir das
três vertentes do adoecer humano.
Desse modo,
pretende o CBN contribuir de forma importante para a coesão e
unidade do movimento, na medida em que passamos a ter uma
referência de qual curso de medicina psicossomática está
se falando. É o da ABMP, elaborado pelo conjunto dos seus
associados, através das Regionais e sob a coordenação da
diretoria nacional, e focado nos eixos que definem sua
identidade e especificidade.
O grande
desafio que se nos coloca é que, além do que temos de biológico
e psicológico, todos estamos atravessados pela cultura e
resta-nos propor um trabalho que, de forma essencial, sem abrir
mão da singularidade dos profissionais de saúde e dos
pacientes, porém que invista no socioambiental, através não só
do trabalho em equipe, e da participação ativa dos diversos
profissionais na construção de uma saúde coletiva.
Afinal, a
prática da interdisciplinaridade na área da saúde ainda é um
desafio! Esperamos que a vivência e a experiência propiciada
pelo CBN nos leve ao exercício da defesa da singularidade de
profissionais e pacientes e que as discussões em torno das três
vertentes nos unifique em torno da concepção do sentido do
adoecer e nos implique na construção de uma saúde coletiva, onde
o trabalho em equipe sirva também como suporte socioafetivo para
todos os profissionais da saúde comprometidos com os pacientes.
Diretoria
Nacional
2 – Apresentação
Histórica do Curso Básico Nuclear (CBN)
Consta nas atas de
reuniões da diretoria da Associação Brasileira de Medicina
Psicossomática (ABMP), nestes últimos anos, a comunicação
dos anseios de seus sócios, principalmente dos seus presidentes
e lideranças regionais, expressos em demandas, constantemente
renovadas, de que se criasse um “Curso Básico Nuclear” para a
ABMP. A resposta concreta a estes anseios e a estas demandas foi
elaborada pelo Dr. José Roberto Siqueira Castro e apresentada em
maio de 2002 – no XIII Congresso Brasileiro de Medicina
Psicossomática, em Salvador-Bahia - por ocasião da eleição de
sua diretoria, como proposta de trabalho para o biênio
2002-2004.
Os delegados
regionais da ABMP, reunidos neste congresso, elegeram, não só o
presidente Dr. José Roberto Siqueira Castro e toda a sua
diretoria, mas principalmente os objetivos centrais de sua
proposta, onde podemos ler da seguinte maneira: 1) “Definir
um eixo teórico que englobe temas pertinentes à
interdisciplinaridade e ao estudo das conexões
sociopsicossomáticas: temas escolhidos pelo movimento como
os que dão especificidade e identidade à ABMP, 2)
“Desenvolver um curso básico nuclear de formação em
psicossomática com objetivos, conteúdos, metodologia e critérios
de avaliação bem definidos e coerentes com o eixo teórico”, 3)
“Estimular linhas de investigação aos temas enunciados
como específicos da psicossomática”...
A partir daí a
Comissão de Ensino da ABMP, iniciou a construção de um “Curso
Básico Nuclear”. Durante quase dois anos de gestão já
transcorridos, a Comissão de Ensino elaborou várias propostas de
teorização e metodologias para o Curso Básico Nuclear –
CBN-ABMP. À medida que estas propostas eram elaboradas, elas
iam sendo enviadas às lideranças das diversas regionais da ABMP,
para serem discutidas, criticadas e sugestões remetidas à
Comissão de Ensino. Durante este processo, a Comissão de Ensino
organizou uma pesquisa de opinião e enviou-a, oficialmente, aos
sócios das diversas regionais, buscando respostas a dez
questões, que nos ajudariam na construção de uma “proposta
compartilhada” e, ao mesmo tempo, promoveria a prática da
interdisciplinaridade entre os sócios.
Foi assim que
trabalhamos: recebendo emails com observações, ouvindo
opiniões, analisando-as, levando-as para as reuniões da Comissão
de Ensino, discutindo-as, assimilando o seu sentido e a sua
coerência aos nossos propósitos. Desta maneira, re-elaborando
constantemente o nosso projeto de um “Curso Básico
Nuclear” para a ABMP, chegamos a esta versão, que encaminhamos
para uma definitiva rodada de sugestões, a partir das quais, a
diretoria nacional colocará em vigência a proposta oficial do
CBN-ABMP.
3 –
Justificativa
A ABMP
estabeleceu, como diretrizes básicas para a construção da
especificidade e da identidade da Associação, o
exercício da interdisciplinaridade e a busca das
conexões sociopsicossomáticas. Isto pressupõe uma identidade
de conceitos e de práticas. A diversidade de interlocutores
ligados à ABMP, de algum modo justificada por sua natureza,
torna-se, ao mesmo tempo, um dificultador no sentido de
favorecer a necessária identidade associativa. A criação de um "Curso
Básico Nuclear" visa, portanto, estabelecer a mínima, mas
indispensável, uniformidade e coerência de conhecimentos e
competências, que caracterizem a elaboração de um eixo
teórico, baseado no exercício da interdisciplinaridade e no
estudo das conexões sociopsicossomáticas como sendo a marca do
estatuto científico da Associação Brasileira de Medicina
Psicossomática – ABMP.
4 – Objetivos
Objetivo geral
Desenvolver
competências, que propiciem uma abordagem multi-articulada da
pessoa, tanto na abordagem preventiva quanto curativa,
considerando seu corpo somático, seu funcionamento psíquico e
sua realidade social, buscando o estabelecimento de conexões
sociopsicossomáticas através do exercício da
interdisciplinaridade.
Objetivos
específicos
-
Refletir sobre
os conceitos fundamentais da medicina psicossomática,
definindo: seus termos, sua especificidade, sua
fundamentação teórico-clínica, sua ética, suas origens e
seus destinos.
-
Construir um
saber sobre o sentido do adoecer, que implique na
verificação dos laços existentes entre o biológico, o
psicológico e o sociológico.
-
Desenvolver a
capacidade de estabelecer relações interpessoais, grupais e
comunitárias, que privilegiem o saber escutar e saber falar,
estimulando o diálogo entre o profissional de saúde –
paciente e interprofissional. Estimular o interesse e a
dedicação ao outro, como ser digno de atenção e
cuidado, respeitando as diferenças pessoais e estimulando o
aproveitamento máximo do potencial de cada um.
-
Desenvolver a
capacidade crítica de questionar e investigar sistemática e
metodologicamente os fenômenos; rejeitando posições a
priori ou preconcebidas.
-
Estimular a
cidadania e a participação ética na sociedade em que
vivemos.
5 – Competências
Partindo do
princípio de que competência é a faculdade de mobilizar um
conjunto de recursos: conhecimentos, habilidades e atitudes,
para solucionar, com pertinência e eficácia, uma série de
situações – conceito baseado em Philippe Perrenoud –, o
CBN se propõe a desenvolver as seguintes competências:
-
Conhecer a
história da medicina psicossomática.
-
Discutir o seu
conceito, espaços e papel.
-
Identificar e
descrever no indivíduo, as manifestações somáticas,
psicológicas e sociológicas.
-
Identificar e
descrever os mecanismos através dos quais se fazem as
conexões entre
as vertentes
somática, psicológica e sociológica.
-
Discutir o
processo saúde-doença incluindo as políticas, instituições,
profissionais, nos níveis de promoção, prevenção e
recuperação.
-
Compreender o
indivíduo como ser histórico-social inconcluso,
considerando-o em sua abrangência e pluridimensionalidade
ambiental, cultural e espiritual.
-
Identificar e
saber lidar com as repercussões da tecnologia e das mudanças
sociais sobre indivíduos e grupos humanos, na perspectiva
sociopsicossomática.
-
Exercer, de
modo efetivo e bem articulado, a prática da
interdisciplinaridade.
-
Reconhecer a
interdisciplinaridade como forma efetiva de abordar os
indivíduos e grupos humanos no contexto biopsicossocial e da
integralidade dos cuidados.
-
Saber contribuir
para a promoção da cidadania em si e nos outros.
-
Estar apto a
participar dos processos de construção da
transdisciplinaridade.
-
Saber agir de
forma compartilhada e coletiva nos vários espaços e momentos
do seu exercício profissional.
-
Participar
ativamente do processo de produção, transmissão e aplicação
dos conhecimentos profissionais relacionados à
sociopsicossomática.
-
Adotar atitude
investigativa, reflexiva e crítica no exercício
profissional.
-
Reconhecer os
processos internos e de auto-organização que envolvem o
desenvolvimento do indivíduo e dos grupos sociais.
-
Saber agir com
autonomia, sensibilidade, respeito a si e aos outros, de
modo competente e criativo.
-
Saber se
relacionar de forma cooperativa e amistosa, administrando e
superando conflitos, na sua relação profissional.
-
Estar sensível
ao saber das disciplinas das outras vertentes do adoecer
humano, mantendo a especificidade técnica profissional dada
pela sua respectiva graduação.
6 – Público alvo
-
Os profissionais
da Área de Saúde: médicos, fisioterapeutas, enfermeiros,
terapeutas-ocupacionais, assistentes sociais,
nutricionistas, odontólogos, fonoaudiólogos, psicólogos,
filósofos, administradores hospitalares, bem como
sociólogos, advogados, arquitetos e quaisquer outros
profissionais que estejam atuando na Área de Saúde e
se interessem pelo curso.
7 – Ementa
História e conceitos
da medicina psicossomática. Conexões sociopsicossomáticas. O
processo saúde-doença. Visão biopsicossocial.
Interdisciplinaridade e seu exercício. Ética e Cidadania.
Transdisciplinaridade. Desenvolvimento do indivíduo e dos grupos
sociais. Pesquisa em Psicossomática.
8 – Metodologia
O CBN deve ser
estruturado em dois a quatro módulos semestrais, de 40 a 60
horas, com duração de um a dois anos. A carga horária do total
do CBN será de, no mínimo, 120 horas e, no máximo, 240 horas.
Cada módulo
deve ser ministrado a partir de um modelo de seminário,
através, sobretudo, de casos clínicos construídos e/ou
situações clínicas que envolvam a participação de profissionais
das vertentes biológica, psicológica e social. Recomenda-se
também, a realização de mesas-redondas com a participação de
profissionais das três vertentes. Eventualmente poderão ocorrer
palestras.
9 – Avaliação
A avaliação dos
alunos deverá considerar a freqüência às aulas e a participação
efetiva na construção do caso clínico e demais atividades do
curso.
10 – Diretrizes
de Funcionamento do Curso Básico Nuclear (CBN)
10.1 -
Uma das especificidades da medicina psicossomática é a
interdisciplinaridade, portanto ela deve ser praticada
desde o início até o final do curso. Este é um dispositivo
muito importante do curso e há que insistir no seu
exercício, na sua prática.
10.2 - A
outra especificidade da medicina psicossomática, e também um
dispositivo muito importante do curso, é a construção das
conexões sociopsicossomáticas. Igualmente, ela deve ser
buscada insistentemente do início até o final do curso.
10.3 - A
exposição detalhada de um “caso clínico” parte do
princípio que a interdisciplinaridade é, na verdade, um
exercício prático. A comissão de ensino da ABMP
disponibilizará um "banco de dados" com casos clínicos,
embora cada Regional possa fazer uso dos casos que julgar
pertinentes, desde que sejam atendidas as recomendações dos
itens 1 e 2 destas diretrizes. Sugere-se a possibilidade de
utilizar, além de casos clínicos, temas ou situações que
permitam a abordagem dos eixos, tais como os programas de
atendimento a drogadictos, anoréticos e bulímicos, programas
de atenção à mulher, grupo de pacientes doentes mentais,
vítimas de violência doméstica, diabéticos,
hipertensos, pacientes com dor, estresse, traumatizados, etc,
convidando-se profissionais e/ou equipes que trabalhem com
tais situações.
10.4 - O
levantamento de questões biológicas, psicológicas
e sociológicas” em torno do caso deve ser feita com a
presença de professores das três áres ou vertentes para que
se propicie efetivamente a reflexão sobre a
intrdisciplinaridade e as conexões sociopsicossomáticas.
Esta é uma atividade muito rica e produtiva, na medida em
que se parte da visão específica de cada disciplina, para,
num segundo momento, buscar-se a leitura integrada e
articulada do caso.
10.5 - A
discussão dos procedimentos interdisciplinares configura o
exercício efetivo da compreensão biopsicosocial e a
possibilidade da prática interdisciplinar.
10.6 - A
possibilidade de o aluno participar de atividades ou
estágios práticos, sob supervisão, é recomendável, sempre
que possível, desde que, em Instituições, onde possa
participar da discussão e construção dos “casos clínicos” e
dos debates a partir das aproximações dos saberes
representantes das vertentes do adoecer humano, mantendo
suas especificidades técnicas profissionais, dadas pelo
respectivo curso de graduação.
10.7 - As
diretrizes sugeridas são norteadoras cabendo, a cada
Regional, optar pela melhor forma de desenvolvê-las, teórica
e praticamente.
11.
Corpo Docente
Cada regional deverá
ter um grupo de professores / profissionais habilitado,
competente, experiente, bem escolhido e bem engajado nas
propostas da ABMP, que determinarão e sustentarão as diretrizes
de ensino, o eixo teórico-prático, a identidade do curso. Além
destes podem ser convidados professores “de fora”, não
associados, que trarão sua contribuição nas três vertentes. O
corpo docente deve, necessariamente, ser constituído de
profissionais das três vertentes: biológica, psicológica e
social.
É recomendável,
sempre que possível, que o grupo de professores se coloque à
disposição dos alunos para acompanhá-los, orientá-los e
supervisioná-los durante o curso, em horário e local que não
sejam o das aulas. A sua função principal é “facilitar a
aprendizagem”.
12 - Banco de
Dados do CBN-ABMP
A idéia de um “banco
de dados” foi criar e manter um dispositivo de apoio aos
professores do CBN, facilitando o seu trabalho de ministrar o
curso e de seguir as diretrizes da ABMP, quanto à
especificidade da Medicina Psicossomática e a identidade
da Associação. Este “banco de dados” será abastecido
e atualizado, permanentemente, pela Comissão de Ensino.
O “banco de
dados” constará de casos clínicos, capítulos de livros
concernentes à medicina psicossomática, artigos ou
trabalhos científicos de sócios da ABMP e textos produzidos
por nossos associados, coerentes com o que estabelecem as “Diretrizes
de Funcionamento do CBN”, e serão disponibilizados para
consulta através da página da ABMP.
13 - Referências Bibliográficas
Serão
disponibilizadas referências bibliográficas para consulta
através da página da ABMP.
Diretoria Nacional da ABMP
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