Blog Psicossomática
Resolução do Conselho Federal de Medicina (CFM) publicada no Diário Oficial da União em 19 de agosto de 2011 apresenta em detalhes as restrições éticas que os médicos, estabelecimentos e instituições vinculadas às atividades médicas devem observar quando da elaboração de peças publicitárias relacionadas a seus serviços. O documento (nº 1.974/2011) acrescenta à norma anterior sobre o tema, publicada em 2003, informações sobre o alcance das disposições e orientações para sua aplicação. Entre os pontos, destacam-se a proibição de assistência médica a distância (por internet ou telefone, por exemplo), a vedação ao anúncio de determinados títulos e certificados e a extensão das regras a instituições, como sindicatos e sociedades médicas.
“A resolução foi detalhada para que haja uma compreensão mais fácil pelos profissionais e para que os conselhos de medicina disponham de critérios objetivos para orientar os médicos e coibir as infrações. Os anexos da resolução compõem um manual de uso. A norma valoriza o profissional, defende o decoro e oferece mais segurança para a população”, avalia o conselheiro Emmanuel Fortes, 3º vice-presidente do CFM e relator da nova resolução.
Com a publicação da resolução, que entra em vigor em 180 dias após essa data, fica claro, por exemplo, que as regras de publicidade são extensivas a documentos médicos como atestados, fichas, boletins, termos, receituários e solicitações, emitidos pelos sistemas público e privado de assistência. Entre outras exigências, estes documentos devem conter nome do profissional, especialidade e número de registro no Conselho Regional de Medicina (CRM) local. Quando a assistência é oferecida por uma instituição devem ser informados o nome do diretor-técnico-médico e o respectivo número de registro no CRM local.
NOVIDADES - Além de detalhamentos, a nova resolução se diferencia da anterior por proibir expressamente ao médico a oferta de consultoria a pacientes e familiares em substituição à consulta médica presencial. Esta proibição se aplica, por exemplo, aos serviços de assessoria médica realizados pela internet ou por telefone. Outro avanço apresentado pela norma é a vedação expressa a que o profissional anuncie possuir títulos de pós-graduação que não guardem relação com sua especialidade.
“Neste caso, o objetivo do Conselho é impedir que os pacientes sejam induzidos ao erro de acreditar que o médico tem qualificação extra em sua especialidade ou que está habilitado a atuar em outra área”, explica Fortes. Ainda em relação à qualificação, a norma abriu a possibilidade de que o médico divulgue ter realizado cursos e outras ações de capacitação, desde que relacionados à sua especialidade e que os respectivos comprovantes tenham sido registrados no Conselho Regional de Medicina local.
De acordo com o documento, a proibição de que o médico participe de anúncios de empresas e produtos é extensiva a entidades sindicais e associativas médicas. Assim, sociedades de especialidade, por exemplo, não podem permitir a associação de seus nomes a produtos – medicamentos, aparelhos, próteses, etc.
DETALHAMENTO – Os critérios que foram detalhados na Resolução 1974/2011 constituem em si um importante avanço por apresentar de forma clara e objetiva o que o médico, a instituição ou o estabelecimento de saúde pode e o que não pode fazer no campo da propaganda e da publicidade. A norma, inclusive com este detalhamento, estará disponível para consulta no site do CFM (www.portalmedico.org.br) a partir de sexta-feira (19), além de sua publicação no Diário Oficial da União nesta data.
O documento prevê que o médico não pode, por exemplo: anunciar que utiliza aparelhos que lhe deem capacidade privilegiada ou que faz uso de técnicas exclusivas; permitir que seu nome seja inscrito em concursos ou premiações de caráter promocional que elejam “médico do ano”, “profissional destaque” ou similares; garantir, prometer ou insinuar bons resultados nos tratamentos oferecidos; e oferecer seus serviços por meio de consórcio.
Também é vedada a propaganda de método ou técnica não aceito pela comunidade científica, ou permitir que seu nome circule em material desprovido de rigor científico; conceder entrevistas para se autopromover, auferir lucro ou angariar clientela (permitindo, por exemplo, a divulgação de endereço e telefone de consultório); abordar assuntos médicos, em anúncios ou no contato com a imprensa, de modo sensacionalista, por exemplo, transmitindo informações desprovidas de caráter científico ou causando pânico ou intranqüilidade na sociedade.
IMAGENS E CONFLITOS - A norma ainda proíbe a exposição de imagens de paciente para a divulgação de técnica, método ou resultado de tratamento, ainda que com autorização expressa do paciente. A exceção a esse preceito é, quando imprescindível, o uso da imagem, autorizado previamente pelo paciente, em trabalhos e eventos científicos.
O detalhamento trazido no anexo da nova resolução obriga expressamente o médico a declarar potenciais conflitos de interesse quando conceder entrevistas, participar de eventos públicos ou transmitir informações à sociedade. Ele determina que o uso de imagens em peças publicitárias enfatize apenas a assistência, ou seja, não devem ser utilizadas representações visuais de alterações do corpo humano causadas por lesões ou doenças ou por tratamentos.
Os critérios ainda vedam a participação do profissional em demonstrações de tratamento realizadas de modo a valorizar habilidades técnicas ou estimular a procura por serviços médicos. Também é vedado o uso de nome, imagem ou voz de pessoas célebres em anúncios de serviços médicos. Nas redes sociais, assim como em outros meios, o médico não pode divulgar endereço e telefone de consultório, clínica ou serviço.
Para orientar o médico, o documento indica especificações técnicas que permitem fácil leitura e compreensão das informações cuja presença é obrigatória nas peças publicitárias: os dados médicos devem ser inseridos nas peças impressas, por exemplo, em retângulos de fundo branco, em letras de tamanho proporcional ao das demais informações e de modo destacado; em peças audiovisuais, a locução dos dados do médico deve ser pausada, cadenciada e perfeitamente audível – também na TV devem ser observadas regras relacionadas a tipo e dimensão de letras. De acordo com a resolução, dúvidas sobre a aplicação das regras de publicidade devem ser encaminhadas à Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos (Codame) do Conselho Regional de Medicina local.
A Comissão de Divulgação de Assuntos Médicos do CFM discutiu as mudanças nas regras de publicidade de serviços médicos entre março de 2010 e julho de 2011 (mês em que a nova norma foi aprovada pelo plenário do Conselho Federal de Medicina). Para a elaboração da proposta, os membros do grupo buscaram referências sobre publicidade e propaganda em leis e regulamentos de venda de medicamentos, bebidas e outras substâncias e produtos restritos, vigentes no Brasil e no exterior. As Codames dos Conselhos Regionais de Medicina também colaboraram nesse trabalho.
"Diabetes Infantil"
Entrevista da Presidente da Regional Rio de Janeiro para Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro:
Dep. Nilton Salomao e Mirian Burd
PART 1-TV - ALERJ - http://www.youtube.com/watch?v=OgjFnp0EUwc&feature=related
PART 2-TV - ALERJ - http://youtu.be/ZV96yRh9vZs
PRÊMIO NOBEL FALA SOBRE A DIFICULDADE DE FAZER
DIAGNÓSTICOS OBJETIVOS DE TRANSTORNOS MENTAIS
ENTREVISTA com ERIC KANDEL: Psiquiatria está em crise por falta de provas científicas (Reportagem de RAFAEL GARCIA – WASHINGTON)
Psiquiatria está em crise por falta de provas científicas
A psiquiatria está em crise, porque falta
comprovação biológica para seus conceitos. Essa é
a opinião do neurobiólogo Eric Kandel, 81,
ganhador do Prêmio Nobel de Medicina de 2000.
O cientista, premiado por seus estudos com
memória, desembarca nesta semana no Rio de
Janeiro para participar do Congresso Brasileiro de Psiquiatria.
Em entrevista à Folha, Kandel condenou o uso de
remédios como a ritalina (droga para tratar
deficit de atenção) para melhorar a concentração de pessoas saudáveis.
Ele falou também sobre a validade da psicanálise,
que pode cobrir lacunas da psiquiatria, caso
adote padrões científicos mais rígidos. O
pesquisador comenta também sobre sua nova
invenção: um camundongo "esquizofrênico" para testar medicamentos.
Folha - Psiquiatras estão debatendo mudanças no
manual de diagnósticos de transtornos mentais.
Muitos acham que o livro não pode tentar ser muito objetivo. O que o sr. acha?
Eric Kandel - A preocupação com a objetividade
foi introduzida há uns 20 anos quando houve uma
tentativa de validar os critérios do manual para
descrever transtornos. Isso foi extremamente
importante para que diferentes psiquiatras
pudessem dar o mesmo diagnóstico a um mesmo paciente.
Mas não houve muitos avanços desde então. Uma das
razões para isso é que os psiquiatras não têm os
chamados "marcadores biológicos" à disposição. Se
você diagnostica diabetes ou hipertensão, pode
usar medições objetivas, independentes. Não
precisa se basear apenas naquilo que o paciente
lhe conta. Nós, psiquiatras, ainda temos que
recorrer à história do paciente. Precisamos
desesperadamente de bons marcadores biológicos.
Sem isso, podemos publicar quantas edições
quisermos do manual, que não chegaremos a lugar nenhum.
A esquizofrenia afeta capacidades mentais
humanas. Como é possível usar um camundongo para estudá-la?
A esquizofrenia tem três classes de sintomas. Há
os "positivos" -ilusões, alucinações e loucura-,
os "negativos" -reclusão, isolamento social e
falta de motivação- e os "cognitivos" -a
dificuldade de organizar as ideias e trabalhar. É
difícil criar um modelo para estudar os sintomas
positivos em cobaias, mas podemos modelar os cognitivos e negativos.
Criamos um camundongo cujo corpo estriado
[estrutura no núcleo do cérebro] produz em
excesso uma proteína que os neurônios usam para
captar o neurotransmissor dopamina. Essa é uma
lesão genética que ocorre em parte dos pacientes
com esquizofrenia. Depois, encontramos um
medicamento que supera essa deficiência e a
restaura ao normal. Achamos que isso poderá ser
útil para tratamentos de depressão também.
O que o sr. acha de usar drogas, como a ritalina
(receitada para deficit de atenção) para
"turbinar" a inteligência, aumentando a concentração?
Não acho que seja boa ideia para pessoas
saudáveis. Esses remédios devem ser prescritos
para pessoas com problemas cognitivos. Essa
drogas não devem nunca ser vendidas sem receita. Não são vitaminas.
O sr. vem falar no Brasil, onde a psicanálise é
relativamente bem aceita. Nos EUA, não é assim.
Que papel o sr. vê para as ideias de Freud hoje?
Não vejo problema em ler Freud da mesma forma que
lemos Nietzche, Dostoiévski ou Shakespeare
-grandes pensadores que escreveram sobre a mente
humana. Mas se você quer que a psicanálise seja
uma terapia eficaz, é preciso ter estudos que
mostrem resultado. É necessário explicar o que
ocorre no cérebro. Isso seria trabalhoso, mas é precisa ser feito.
O maior problema não é com Freud, mas com aqueles
que o sucederam. Eles não desenvolveram uma
tradição científica na psicanálise. O treinamento
para psicanálise deveria mudar, de forma que uma
parte das pessoas formadas se dedicasse exclusivamente à pesquisa.
Não existe hoje uma aceitação maior de que a
mente descrita por Freud possui estruturas correlatas no cérebro?
Sim. O córtex pré-frontal está muito relacionado
à moralidade e ao julgamento de valores, por
exemplo. Uma lesão nessa região do cérebro pode
tornar uma pessoa amoral, um psicopata. Mas acima
disso, a ideia geral de Freud sobre processos
mentais inconscientes é muito importante para
nossas vidas. Boa parte de nossa atividade mental
é inconsciente. Isso acabou se mostrando uma verdade universal.
O sr. passou a infância em Viena, quando Freud
ainda vivia lá, sofrendo também a perseguição
nazista. Isso o influenciou em sua maior aceitação à psicanálise?
Isso teve efeitos positivos e negativos em mim.
De um lado, parte de minha vida era superar o
transtorno do estresse pós-traumático, porque foi
uma experiência terrível. Mas eu fui influenciado
pela cultura de Viena, tinha muitos amigos cujos
pais eram psicanalistas, e tinha interesse nisso.
Eu só desisti da psicanálise quando me apaixonei
pela neurobiologia. E eu me interessei pelos
mecanismos de armazenamento de memória, porque é
um assunto central da psicanálise.
RAIO-X
ERIC KANDEL
NASCIMENTO
7 de novembro de 1929 em Viena
FORMAÇÃO
Medicina na Universidade de Nova York, com residência em psiquiatria
NOBEL
Ganhou o prêmio na categoria de medicina ou
fisiologia pelo estudo do armazenamento de memórias em neurônios
A industria bilionária da fabricação de doentes
Os vendedores de doenças
As estratégias da indústria farmacêutica para multiplicar lucros espalhando o medo e transformando qualquer problema banal de saúde numa "síndrome" que exige tratamento.
Ray Moynihan & Alan Cassels
Le Monde Diplomatique, maio 2006
Tradução: Wanda Caldeira Brant
Há cerca de trinta anos, o dirigente de uma das maiores empresas farmacêuticas do mundo fez declarações muito claras. Na época, perto da aposentadoria, o dinâmico diretor da Merck, Henry Gadsden, revelou à revista Fortune o seu desespero por ver o mercado potencial da sua empresa confinado somente às doenças. Explicando que preferiria ver a Merck transformada numa espécie de Wringley's – fabricante de gomas de mascar – Gadsden declarou que sonhava, havia muito tempo, produzir medicamentos destinados às pessoas... saudáveis. Porque, assim, a Merck teria a possibilidade de "vender para todo mundo". Três décadas depois, o sonho entusiasta de Gadsden tornou-se realidade.
As estratégias de marketing das maiores empresas farmacêuticas almejam agora, e de maneira agressiva, as pessoas saudáveis. Os altos e baixos da vida diária tornaram-se problemas mentais. Queixas totalmente comuns são transformadas em síndromes de pânico. Pessoas normais são, cada vez mais pessoas, transformadas em doentes. Em meio a campanhas de promoção, a indústria farmacêutica, que movimenta cerca de quinhentos bilhões dólares por ano, explora os nossos mais profundos medos da morte, da decadência física e da doença – mudando assim literalmente o que significa ser humano. Recompensados com toda razão quando salvam vidas humanas e reduzem os sofrimentos, os gigantes farmacêuticos não se contentam mais em vender para aqueles que precisam. Pela pura e simples razão que, como bem sabe Wall Street, dá muito lucro dizer às pessoas saudáveis que estão doentes.
A fabricação das "síndromes"
A maioria de habitantes dos países desenvolvidos desfruta de vidas mais longas, mais saudáveis e mais dinâmicas que as de seus ancestrais. Mas o rolo compressor das campanhas publicitárias, e das campanhas de sensibilização diretamente conduzidas, transforma as pessoas saudáveis preocupadas com a saúde em doentes preocupados. Problemas menores são descritos como muitas síndromes graves, de tal modo que a timidez torna-se um "problema de ansiedade social", e a tensão pré-menstrual, uma doença mental denominada "problema disfórico pré-menstrual" . O simples fato de ser um sujeito "predisposto" a desenvolver uma patologia torna-se uma doença em si.
O epicentro desse tipo de vendas situa-se nos Estados Unidos, abrigo de inúmeras multinacionais farmacêuticas. Com menos de 5% da população mundial, esse país já representa cerca de 50% do mercado de medicamentos. As despesas com a saúde continuam a subir mais do que em qualquer outro lugar do mundo. Cresceram quase 100% em seis anos – e isso não só porque os preços dos medicamentos registram altas drásticas, mas também porque os médicos começaram a prescrever cada vez mais.
De seu escritório situado no centro de Manhattan, Vince Parry representa o que há de melhor no marketing mundial. Especialista em publicidade, ele se dedica agora à mais sofisticada forma de venda de medicamentos: dedica-se, junto com as empresas farmacêuticas, a criar novas doenças. Em um artigo impressionante intitulado "A arte de catalogar um estado de saúde", Parry revelou recentemente os artifícios utilizados por essas empresas para "favorecer a criação" dos problemas médicos. Às vezes, trata-se de um estado de saúde pouco conhecido que ganha uma atenção renovada; às vezes, redefine-se uma doença conhecida há muito tempo, dando-lhe um novo nome; e outras vezes cria-se, do nada, uma nova "disfunção". Entre as preferidas de Parry encontram-se a disfunção erétil, o problema da falta de atenção entre os adultos e a síndrome disfórica pré-menstrual – uma síndrome tão controvertida, que os pesquisadores avaliam que nem existe.
Médicos orientados por marqueteiros
Com uma rara franqueza, Perry explica a maneira como as empresas farmacêuticas não só catalogam e definem seus produtos com sucesso, tais como o Prozac ou o Viagra, mas definem e catalogam também as condições que criam o mercado para esses medicamentos.
Sob a liderança de marqueteiros da indústria farmacêutica, médicos especialistas e gurus como Perry sentam-se em volta de uma mesa para "criar novas idéias sobre doenças e estados de saúde". O objetivo, diz ele, é fazer com que os clientes das empresas disponham, no mundo inteiro, "de uma nova maneira de pensar nessas coisas". O objetivo é, sempre, estabelecer uma ligação entre o estado de saúde e o medicamento, de maneira a otimizar as vendas.
Para muitos, a idéia segundo a qual as multinacionais do setor ajudam a criar novas doenças parecerá estranha, mas ela é moeda corrente no meio da indústria. Destinado a seus diretores, um relatório recente de Business Insight mostrou que a capacidade de "criar mercados de novas doenças" traduz-se em vendas que chegam a bilhões de dólares. Uma das estratégias de melhor resultado, segundo esse relatório, consiste em mudar a maneira como as pessoas vêem suas disfunções sem gravidade. Elas devem ser "convencidas" de que "problemas até hoje aceitos no máximo como uma indisposição" são "dignos de uma intervenção médica". Comemorando o sucesso do desenvolvimento de mercados lucrativos ligados a novos problemas da saúde, o relatório revelou grande otimismo em relação ao futuro financeiro da indústria farmacêutica: "Os próximos anos evidenciarão, de maneira privilegiada, a criação de doenças patrocinadas pela empresa".
Dado o grande leque de disfunções possíveis, certamente é difícil traçar uma linha claramente definida entre as pessoas saudáveis e as doentes. As fronteiras que separam o "normal" do "anormal" são freqüentemente muito elásticas; elas podem variar drasticamente de um país para outro e evoluir ao longo do tempo. Mas o que se vê nitidamente é que, quanto mais se amplia o campo da definição de uma patologia, mais essa última atinge doentes em potencial, e mais vasto é o mercado para os fabricantes de pílulas e de cápsulas.
Em certas circunstâncias, os especialistas que dão as receitas são retribuídos pela indústria farmacêutica, cujo enriquecimento está ligado à forma como as prescrições de tratamentos forem feitas. Segundo esses especialistas, 90% dos norte-americanos idosos sofrem de um problema denominado "hipertensão arterial"; praticamente quase metade das norte-americanas são afetadas por uma disfunção sexual batizada FSD (disfunção sexual feminina); e mais de quarenta milhões de norte-americanos deveriam ser acompanhados devido à sua taxa de colesterol alta. Com a ajuda dos meios de comunicação em busca de grandes manchetes, a última disfunção é constantemente anunciada como presente em grande parte da população: grave, mas sobretudo tratável, graças aos medicamentos. As vias alternativas para compreender e tratar dos problemas de saúde, ou para reduzir o número estimado de doentes, são sempre relegadas ao último plano, para satisfazer uma promoção frenética de medicamentos.
Quanto mais alienados, mais consumistas
A remuneração dos médicos especialistas pela indústria não significa necessariamente tráfico de influência. Mas, aos olhos de um grande número de observadores, os médicos e a indústria farmacêutica mantêm laços extremamente estreitos.
As definições das doenças são ampliadas, mas as causas dessas pretensas disfunções são, ao contrário, descritas da forma mais sumária possível. No universo desse tipo de marketing, um problema maior de saúde, tal como as doenças cardiovasculares, pode ser considerado pelo foco estreito da taxa de colesterol ou da tensão arterial de uma pessoa. A prevenção das fraturas da bacia em idosos confunde-se com a obsessão pela densidade óssea das mulheres de meia-idade com boa saúde. A tristeza pessoal resulta de um desequilíbrio químico da serotonina no celebro.
O fato de se concentrar em uma parte faz perder de vista as questões mais importantes, às vezes em prejuízo dos indivíduos e da comunidade. Por exemplo: se o objetivo é a melhora da saúde, alguns dos milhões investidos em caros medicamentos para baixar o colesterol em pessoas saudáveis, podem ser utilizados, de modo mais eficaz, em campanhas contra o tabagismo, ou para promover a atividade física e melhorar o equilíbrio alimentar.
A venda de doenças é feita de acordo com várias técnicas de marketing, mas a mais difundida é a do medo. Para vender às mulheres o hormônio de reposição no período da menopausa, brande-se o medo da crise cardíaca. Para vender aos pais a idéia segundo a qual a menor depressão requer um tratamento pesado, alardeia-se o suicídio de jovens. Para vender os medicamentos para baixar o colesterol, fala-se da morte prematura. E, no entanto, ironicamente, os próprios medicamentos que são objeto de publicidade exacerbada às vezes causam os problemas que deveriam evitar.
O tratamento de reposição hormonal (THS) aumenta o risco de crise cardíaca entre as mulheres; os antidepressivos aparentemente aumentam o risco de pensamento suicida entre os jovens. Pelo menos, um dos famosos medicamentos para baixar o colesterol foi retirado do mercado porque havia causado a morte de "pacientes". Em um dos casos mais graves, o medicamento considerado bom para tratar problemas intestinais banais causou tamanha constipação que os pacientes morreram. No entanto, neste e em outros casos, as autoridades nacionais de regulação parecem mais interessadas em proteger os lucros das empresas farmacêuticas do que a saúde pública.
A "medicalização" interesseira da vida
A flexibilização da regulação da publicidade no final dos anos 1990, nos Estados Unidos, traduziu-se em um avanço sem precedentes do marketing farmacêutico dirigido a "toda e qualquer pessoa do mundo". O público foi submetido, a partir de então, a uma média de dez ou mais mensagens publicitárias por dia. O lobby farmacêutico gostaria de impor o mesmo tipo de desregulamentação em outros lugares.
Há mais de trinta anos, um livre pensador de nome Ivan Illich deu o sinal de alerta, afirmando que a expansão doestablishment médico estava prestes a "medicalizar" a própria vida, minando a capacidade das pessoas de enfrentarem a realidade do sofrimento e da morte, e transformando um enorme número de cidadãos comuns em doentes. Ele criticava o sistema médico, "que pretende ter autoridade sobre as pessoas que ainda não estão doentes, sobre as pessoas de quem não se pode racionalmente esperar a cura, e sobre as pessoas para quem os remédios receitados pelos médicos se revelam no mínimo tão eficazes quanto os oferecidos pelos tios e tias".
Mais recentemente, Lynn Payer, uma redatora médica, descreveu um processo que denominou "a venda de doenças": ou seja, o modo como os médicos e as empresas farmacêuticas ampliam sem necessidade as definições das doenças, de modo a receber mais pacientes e comercializar mais medicamentos. Esses textos tornaram-se cada vez mais pertinentes, à medida que aumenta o rugido do marketing e que se consolidam as garras das multinacionais sobre o sistema de saúde.
BIBLIOGRAFIA COMPLEMENTAR:
A revista médica PLoS Medecine traz em seu número de abril de 2006, um importante dossiê sobre "A produção de doenças" –http://www.medicine.plosjournals.org
Na França, as revistas Pratiques (dirigida ao grande público) e Prescrire (destinada aos médicos) avaliam os medicamentos e trazem um olhar crítico sobre a definição das doenças.
Jörg Blech, Les inventeurs de maladies. Manœuvres et manipulations de l'industrie pharmaceutique, Arles, Actes Sud, 2005.
Philippe Pignarre, Comment la dépression est devenue une épidémie, Paris, Hachette-Litté rature, col. Pluriel, 2003.
Este Artigo vem ao encontro com o que já nos foi declarado por PAUL ZANE PILZER em sua pesquisa de 6 milhões de dólares, onde denuncia a INDÚSTRIA DA DOENÇA nos EUA, em sua palestra na Extravaganza Brasil 2005. (NT)
multimidia Di@Seguinte.
No site www.ipdsc.com.br voce pode acessar os outros dois materiais, o manual para os profissionais "O profissional de saúde, o adolescente e a contracepção de emergencia" e o livro "Aconteceu, e daí?"
Somatização na América Latina: uma revisão sobre a classificação de transtornos somatoformes, síndromes funcionais e sintomas sem explicação médica
São Paulo, 23 de Agosto de 2011
Objetivo: Os sintomas sem explicação médica são frequentes e estão associados a sofrimento mental em vários contextos. Estudos prévios apontam que as populações latino-americanas são propensas à somatização. Diante da reformulação da Classificação Internacional de Doenças para sua 11ª edição, as particularidades dos nativos desta região do mundo devem ser levadas em consideração. O objetivo deste estudo é prover informações sobre somatização na população latino-americana para a tomada de decisões quanto às categorias diagnósticas ligadas a sintomas sem explicação médica na Classificação Internacional de Doenças-11ª edição.
Método: Revisão extensa da produção de 1995 a 2011 sobre somatização em populações de origem latino-americana.
Resultados: A análise dos 106 estudos incluídos nesta revisão foi dividida em 15 categorias: revisões sistemáticas, revisões conceituais, prevalências, atenção primária, depressão e ansiedade, fatores de risco, violência, quadros orgânicos, relacionamento com profissionais e o sistema de saúde, etnia, síndromes ligadas à cultura, síndrome da fadiga crônica, fibromialgia, transtorno dismórfico corporal, e conversão e dissociação.
Conclusão: Os estudos latino-americanos confirmam a dificuldade na definição categorial de quadros com sintomas sem explicação médica. O suposto "traço somatizador" das culturas latinas pode estar associado mais à expressão cultural e linguística do que a um caráter de natureza étnica, e tais particularidades devem estar na agenda na nova classificação destes fenômenos na Classificação Internacional de Doenças-11ª edição.
Keywords: Transtornos somatoformes; América Latina; Classificação Internacional de Doenças; Psicopatologia; Sintomas.
Somatização na América Latina: uma revisão sobre a classificação de transtornos somatoformes, síndromes funcionais e sintomas sem explicação médica - Revista Brasileira de Psiquiatria; [online]. 2011, vol.33, suppl.1, pp. s59-s69

Baixe a apostila sobre as consequencias e custos de CRACK
Veja a Apresentação:
Com custo relativamente baixo e alto potencial para gerar dependência química, o crack é, dentre as substâncias entorpecentes, aquela que tem causado as consequências mais nefastas em nossa sociedade.
A droga atinge grave e diretamente a saúde física e mental dos usuários. Mais que isso, e de forma muito rápida, debilita laços familiares e relações sociais. Nesta medida, constitui indiscutível fator de aumento das taxas de criminalidade, violência e outros problemas sociais.
O combate mais efi ciente faz-se pela prevenção, e, para tanto, conhecimento é fundamental.
Esta cartilha, que especialistas elaboraram por solicitação do Conselho Nacional de Justiça, tem por objetivo levar informações básicas sobre o tema aos colaboradores do sistema de justiça.
E o texto, redigido em linguagem simples, está também à disposição no portal do CNJ (www.cnj.jus.br), de modo que o acesso será gratuito aos órgãos do poder público e à população em geral.
Ministro Cezar Peluso Presidente do Conselho Nacional de Justiça.
UFPE DISPONIBILIZA HISTÓRICO DA CULTURA PERNAMBUCANA EM ACERVO VIRTUAL
Portal da Fundação Palmares
Povos Afrodescendentes, o Laboratório de História Oral e da Imagem (Lahoi) da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) publica resultados de dois projetos que têm por objetivo resgatar a memória cultural do Estado. Um resgata a memória e traz um inventário sonoro dos maracatus. O outro torna acessível material histórico sobre as manifestações e lutas das décadas de 1970 a 1990.
Fruto do projeto Ritmos, Cores e Gestos da Negritude Pernambucana, o Lahoi disponibiliza em seu acervo virtual levantamentos, documentos, fotografias e entrevistas que dão voz a importantes lideranças dos movimentos culturais e sociais negros pernambucanos. Com foco nesses movimentos, o projeto evidencia as relações construídas por seus militantes nas duas décadas.
O período foi escolhido por constituir um momento muito significativo na história do estado, marcado por intensas lutas sociais, onde maracatus, afoxés, capoeiras, escolas de samba e grupos de música e teatro foram fundamentais na integração do povo. De acordo com Isabel Guillen, coordenadora do projeto, o material ressalta importantes características dessas mobilizações e sua importância na afirmação de um orgulho pela identidade, pela negritude.
PERSPECTIVAS - No acervo virtual, Isabel vê uma oportunidade de colocar em circulação outro olhar sobre a cultura na grande Recife. O desejo é de que muitos consultem o acervo. Tamanha diversidade e riqueza não podem permanecer invisíveis, afirma. Não adianta documentação trancada. Ela precisa circular, produzir novos saberes, causar inquietações, ser agente de transformação no mundo, completa.
visite: http://www.sbpcpe.org/index.php?dt=2011_06_15&pagina=noticias&id=06566
visite
http://www.boqnews.com/
http://boqnews.com/ultimas_texto2.php?cod=8689
visite a página.
USP cria graduação em ciências biomédicas
16/06/2011
endereço: http://agencia.fapesp.br/14046
Por Elton Alisson
Agência FAPESP – Os candidatos ao vestibular mais concorrido do país terão uma nova opção de carreira para escolher a partir deste ano. A Universidade de São Paulo (USP) criou o curso de graduação em ciências biomédicas.
Com duração de oito semestres, o curso, que será oferecido já no próximo vestibular da Fuvest e será ministrado a partir de 2012 no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP, em São Paulo, em período integral, pretende formar cientistas na área biológica para desenvolver projetos multidisciplinares de pesquisa de fronteira.
Para isso, o curso pretende possibilitar aos alunos um amplo conhecimento dos aspectos básicos da biologia humana, dos processos patológicos e das abordagens diagnósticas e terapêuticas para aplicação na medicina translacional – a “tradução” da pesquisa biológica em práticas clínicas. E, ao mesmo tempo, incentivá-los a participar, desde o ingresso no curso, em pesquisas científicas.
“O curso será voltado, basicamente, para formar pesquisadores na área biológica voltada à saúde, tendo acesso a conceitos avançados de conhecimento, como genômica, bioinformática, terapias celular e gênica, medicina translacional, sequenciamento de nova geração, desenho racional de drogas, etc. Eventualmente, os graduandos também poderão atuar em empresas de iniciativa privada ligadas à área de biomédicas, como a indústria farmacêutica e a de alimentos ou ainda em laboratórios de análise, desde que façam cursos de especialização após o curso”, disse o professor do ICB e um dos idealizadores do curso, Carlos Frederico Martins Menck, à Agência FAPESP.
De acordo com o professor, isso será possível devido ao formato da grade curricular do novo curso, que possui uma certa flexibilidade, e permitirá ao aluno optar pelo seu próprio caminho de formação.
Nos dois primeiros anos e meio de curso, os estudantes cursarão um conjunto de disciplinas obrigatórias, com enfoque multidisciplinar, integrando áreas como anatomia, fisiologia, biologia celular, genômica e bioinformática, entre outras. Posteriormente, terão que realizar um estágio, no qual desenvolverão um projeto de pesquisa experimental.
Ao fim do curso, o graduando poderá receber, preferencialmente e dependendo do trabalho desempenhado em seu estágio experimental, uma das seguintes habilitações: biofísica; imunologia; microbiologia; parasitologia; fisiologia; biologia molecular; histologia humana; bioquímica e embriologia.









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